A Maturidade do Axé e a Jornada do Egbôme
Por: Babá Ifábulujè Aworeni Odusolá (Luiz Roberto Drumond Tinoco)
A Maturidade …
Chegar aos sete anos de iniciado no Axé Casa Grande não quer dizer que irá receber Deká, pois este será de direito a quem se tornará ìyálórìṣà ou bàbálórìṣà, tendo a responsabilidade de permanecer no Égbè para que este seja perpetuado. Não é apenas contar o tempo passado desde o dia em que suas mãos e sua cabeça foram entregues ao òrìṣà/Vodun que rege sua vida. É reconhecer que uma etapa de aprendizado se completou e que outra, mais exigente e silenciosa, começa agora.
Você já não é mais ìyáwó / omó vodun. A partir de hoje, a casa, seus irmãos e irmãs de santo, e a própria tradição esperam algo diferente: não mais a obediência de quem aprende os primeiros passos, mas a responsabilidade de quem já sabe caminhar sozinho — e que, por isso mesmo, precisa caminhar com mais cuidado.
"O ìyáwó aprende porque ainda não sabe. O Egbôme ensina, mesmo quando está calado — porque tudo o que faz, os mais novos observam."
— Babá Ifábulujè Aworeni Odusolá
O Que Significa Completar Sete Anos
Na tradição do Candomblé, o cumprimento de sete anos de iniciação marca a passagem do ìyáwó (iniciado em formação) para a condição de egbôme, que designa o irmão ou a irmã mais velha da família de santo. Esse marco é o reconhecimento de que você atravessou o ciclo básico de aprendizado ritual e possui maturidade espiritual para assumir responsabilidades maiores.
Contudo, isso não significa necessariamente que você já tenha todo o conhecimento, pois o verdadeiro sabedoria só é adquirida por quem convive ativamente dentro das tradições e ensinamentos da sua própria família espiritual, sem buscar respostas em quintais e famílias alheias.
De aprendiz a exemplo: Enquanto ìyáwó, o natural era perguntar antes de agir e ser corrigido. Como egbôme, você continua aprendendo, mas passa a ser referência constante para os mais novos.
Uma passagem, não um fim: Tornar-se egbôme não encerra sua formação nem anula as obrigações aprendidas. A memória do recolhimento e dos primeiros fundamentos permanece para sempre como base da sua história espiritual.
Compromisso com o saber: O Sacerdote do Axé Casa Grande nunca foi omisso em passar conhecimento aos seus iniciados, tanto nos fundamentos internos quanto nos estudos da diáspora africana, divulgados semanalmente nas redes sociais do Égbè e pelo site www.axecasagrande.com.br.
Humbê: A Educação Continuada do Axé
A partir da transição, o Humbê — a educação do Axé que nunca se conclui — deve ser vivido com mais ética, seriedade e consciência sobre o impacto de cada palavra, gesto e sentimento de pertencimento.
Responsabilidade pelo exemplo: Sua conduta orienta os mais novos, mesmo sem um cargo formal de liderança.
Sustentação do axé: Sua presença nas obrigações, giras e festividades passa a ter papel ativo na sustentação energética da casa, ao lado dos demais mais velhos.
Rigor e autonomia: A avaliação sobre falhas torna-se mais rigorosa, pois se espera maturidade. O estudo dos fundamentos, cantigas e história da linhagem deve continuar de forma autônoma.
Ética diária: O Humbê se traduz no respeito aos mais novos, na lealdade ao sacerdote e na postura responsável mesmo fora do terreiro.
Conduta ao Visitar Outra Casa de Axé
A maturidade do egbôme se revela, sobretudo, na forma como ele se porta em outros terreiros. A discrição e o respeito são as marcas fundamentais dessa formação.
Diretrizes de Conduta
• Vestir-se com respeito e adequação à tradição local.
• Apresentar-se à liderança antes de circular pelo espaço.
• Não entrar em áreas reservadas (ronkó, quartos de santo) sem convite explícito.
Durante a visita
• Observar em silêncio e respeitar a ordem ritual da casa visitada.
• Nunca comparar publicamente os fundamentos do local com os do Axé Casa Grande.
• Manter sigilo absoluto sobre os segredos (awó) da sua própria casa.
• Tratar a todos com cordialidade, independente do cargo.
Se convidado a atuar
• Participar de rituais apenas com autorização do seu sacerdote ou com extrema cautela.
• Em caso de dúvida, declinar educadamente ou consultar discretamente os mais velhos.
Após a visita
• Compartilhar aprendizados com seus mais velhos sem adotar tom de crítica ou fofoca.
Responsabilidades no Axé Casa Grande
Além da postura externa, o egbôme assume obrigações práticas dentro do terreiro:
Orientação aos ìyáwó / omó vodun: Colaborar pacientemente no aprendizado dos mais novos quando solicitado, sem jamais usurpar a autoridade da liderança sacerdotal.
Sustentação da casa: Contribuir na medida das possibilidades para a manutenção física e ritual das obrigações da comunidade.
Egbôme com Sacerdócio: Estar sempre presente nas obrigações do Axé acompanhado de seus filhos, para que eles aprendam a origem, a cultura e o pertencimento de sua raiz.
Preservação da reputação: Zelar pelo nome da casa em Cabo Frio e na Região dos Lagos, honrando sua história de resistência e dignidade.
A Raiz Sacerdotal de Babá Ifábulujè Aworeni Odusolá
A legitimidade de tudo o que se pratica no Axé Casa Grande deriva da trajetória de seu fundador, Luiz Roberto Drumond Tinoco (Babá Ifábulujè Aworeni Odusolá), natural de Casimiro de Abreu/RJ, que soma mais de quatro décadas de dedicação espiritual.
Cronologia e Formações Sacerdotais:
1979 — Umbanda: Batismo espiritual em Macaé/RJ.
1982 — Iniciação Jeje-Nagô: Iniciação para o Vodum Sogbò no Ilê Axé Atawajá, em Campo Grande/RJ.
1996 — Umbanda: Ingresso na Tenda de Umbanda Xangô Menino em Macaé/RJ.
2008 — Culto aos Eguns: Obrigação litúrgica no culto ancestral aos Eguns realizada no Ilê Axé Lessen Egungum Babá Elequiobé, na Ilha de Itaparica/BA.
2009 — Sacerdócio de Ifá (Babalawo): Iniciação ao sacerdócio de Ifá no Egbé Ifá Odusolá Aworeni em Sorocaba/SP, origem do título sagrado Aworeni.
2025 — Nação Jeje Savalu: Alinhamento à tradição Jeje Savalu através do Ilê Axé Jeje Dewá em Dias D'Ávila/BA.
Conhecer essa ancestralidade — que se conecta a Itaparica, Sorocaba, Dias D'Ávila e à cidade sagrada de Ilê Ifé, na Nigéria — é parte essencial do Humbê. O egbôme é o guardião dessa memória e ancestralidade.
Tornar-se egbôme é receber um voto de confiança do seu òrìṣà/Vodun, do seu sacerdote e da sua comunidade. Que a sua caminhada seja pautada pela ética, discrição e humildade, honrando a raiz espiritual que lhe foi transmitida.
"O tempo de ensina ao ìyáwó / omó vodun a obedecer. O tempo de egbôme ensina a responder por si — e pelos que vêm depois."
— Babá Ifábulujè Aworeni Odusolá
