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Tradição

Como as Novas Mídias Salvaguardam a Memória e a Tradição Oral Afro-Brasileira

LLuiz Roberto Drumond Tinoco - Bàbá Ifábulujè Aworeni Odusolá05 de setembro de 20264 min de leitura

A Preservação da Ancestralidade Digital: Como as Novas Mídias Salvaguardam a Memória e a Tradição Oral Afro-Brasileira

Autor: Luiz Roberto Drumond Tinoco (Bàbá Ifábulujè Aworeni Odusolá)

Sacerdote de Cultura Africana, Pedagogo, Historiador, Jornalista e Autor.

Categoria: Patrimônio Imaterial, Educação & Cultura de Matriz Africana

Introdução

A cultura de matriz africana no Brasil e a religiosidade ancestral trazem em sua essência a oralidade como pilar fundamental de transmissão de saberes. Durante séculos, o conhecimento sobre os itàns, o uso ritualístico das folhas, a cadência das cantigas e as genealogias dos terreiros foram guardados e repassados pelo sopro da voz, na convivência diária no terreiro, a partir da escuta atenta aos mais velhos.

Com o avanço e a democratização das tecnologias da informação e comunicação, abre-se um novo capítulo nessa trajetória secular. O ambiente digital — longe de substituir o chão sagrado do terreiro — emerge como um espaço estratégico para a salvaguarda da memória, a produção de acervo histórico e o combate ostensivo à intolerância e ao racismo religioso. Trata-se da consolidação de uma ancestralidade digital, onde a tradição se renova e se protege por meio dos novos suportes midiáticos.

1. A Confluência entre a Tradição Oral e as Novas Mídias

A transição do saber oral para o meio digital suscita reflexões importantes dentro das comunidades de axé. Historicamente, a tradição oral não se resume à ausência de escrita, mas sim a uma pedagogia viva baseada no afeto, na vivência corporal e no respeito à hierarquia do tempo. Quando transposta para a internet — por meio de áudios, vídeos, artigos e podcasts —, essa dinâmica ganha contornos de difusão e preservação em larga escala.

As plataformas digitais funcionam hoje como grandes bibliotecas comunitárias. Elas possibilitam que narrativas historicamente marginalizadas ou silenciadas pela historiografia oficial ganhem centralidade, alcançando públicos diversos e garantindo que registros de mestres e mestras de saberes não se percam com o passar dos anos.

2. O Uso Estratégico dos Meios Digitais no Combate ao Racismo Religioso

A desinformação e os estigmas construídos ao longo de séculos sobre as religiões e manifestações de matriz africana encontram no ambiente virtual um espaço direto de enfrentamento. A produção de conteúdo pedagógico de qualidade permite desmistificar conceitos, apresentar a beleza filosófica das tradições e educar a sociedade sobre a contribuição civilizatória dos povos africanos no Brasil.

  • Democratização do Acesso à Informação: Apresentação dos valores civilizatórios afro-brasileiros para além das fronteiras dos terreiros.

  • Formação e Formatação de Redes: Conexão entre pesquisadores, lideranças religiosas e praticantes de diferentes regiões.

  • Registro e Denúncia: Amplificação da visibilidade de ações afirmativas e de defesa do patrimônio cultural.

3. Limites Éticos: O Axé e o Respeito aos Fundamentos

Um dos pontos centrais da discussão sobre a cultura de matriz africana na internet diz respeito aos limites entre a comunicação pública e a preservação do segredo sagrado (o fundamento). Nem tudo o que é vivenciado no terreiro deve ou pode ser exposto nas telas. O respeito à hierarquia e às regras de cada casa continua sendo o parâmetro ético fundamental.

  • Foco de Atuação:

    • Ambiente Digital (Comunicação Externa): Educação, valorização histórica, acervo de memória e combate ao preconceito.

    • Ambiente Comunitário / Terreiro (Vivência Interna): Iniciação, prática ritual, vivência comunitária e transmissão de fundamentos.

  • Público-Alvo:

    • Ambiente Digital (Comunicação Externa): Sociedade em geral, estudantes, pesquisadores e comunidade de axé.

    • Ambiente Comunitário / Terreiro (Vivência Interna): Iniciados, filiados à casa e frequentadores do espaço sagrado.

  • Meio de Transmissão:

    • Ambiente Digital (Comunicação Externa): Textos, áudios, vídeos, podcasts e publicações digitais.

    • Ambiente Comunitário / Terreiro (Vivência Interna): Convivência, oralidade direta, corporalidade e ritos de passagem.

4. Construindo um Acervo Histórico para as Futuras Gerações

Projetos digitais focados na memória afro-brasileira cumprem um papel essencial no mapeamento e na documentação de histórias de vida, genealogias de casas de axé e manifestações culturais regionais. Ao registrar a trajetória dos nossos mais velhos, garantimos que os passos que vêm de longe continuem orientando os caminhos do futuro.

O uso de ferramentas como podcasts, blogs educativos e canais de streaming consolida a escrita e a fala negra como monumentos de resistência cultural e intelectual, assegurando que a nossa herança permaneça viva, respeitada e acessível.

Conclusão

A cultura de matriz africana sempre demonstrou uma capacidade extraordinária de reinvenção e resistência. Ao ocupar as redes e as plataformas digitais de forma ética, pedagógica e comprometida com a tradição, não estamos apenas utilizando a tecnologia moderna; estamos dando continuidade ao compromisso ancestral de perpetuar nossa história, nosso axé e nossa identidade.

No Axé Casa Grande, reiteramos o compromisso de utilizar a palavra — escrita e falada — como instrumento de libertação, preservação e celebração da nossa memória ancestral.