O Tecido Invisível do Axé: O Pertencimento na Filosofia de Terreiro
O Tecido Invisível do Axé: O Pertencimento na Filosofia de Terreiro
Em um mundo marcado pela fragmentação e pela pressa, a busca por um lugar ao qual verdadeiramente pertencemos tornou-se uma das grandes jornadas da alma humana. Mas o que significa, de fato, pertencer?
Longe de ser apenas um registro burocrático ou a frequência a um espaço físico, o verdadeiro pertencimento é uma experiência filosófica e espiritual profunda. Sob a liderança e a filosofia professada pelo sacerdote de uma comunidade tradicional Iorubá, essa busca ganha contornos de cura, ancestralidade e integração cosmológica.
Nesta casa de cultura tradicional, o pertencimento não se impõe pela exclusão, mas sim pela ampliação. É ali que o Axé — a força vital que move o universo — se manifesta através de uma tessitura rica e complexa, onde confluem as águas do Jeje, a sabedoria de Ifá, a presença viva de Egungun e a acolhida amorosa da Umbanda.
A Filosofia do Sacerdote: Unidade na Diversidade
Para o olhar ocidental, habituado a gavetas rígidas e exclusivismos religiosos, a coexistência dessas vertentes em um mesmo espaço pode parecer um enigma. No entanto, na filosofia professada pelo sacerdote, essa multiplicidade é a expressão máxima da própria natureza. Assim como uma floresta não é feita de uma única árvore, a espiritualidade que sustenta o ser humano precisa ser plural.
Neste território sagrado, pertencer significa compreender-se como parte de uma engrenagem viva, onde cada segmento cumpre um papel vital no equilíbrio do iniciado e da comunidade:
Com Ifá: O pertencimento se dá através da palavra e do destino. Em Ifá, descobrimos que não estamos soltos no vácuo; há um pacto ancestral e um propósito de evolução (Ori) que nos conecta diretamente à sabedoria primordial.
Com Jeje: Aprendemos a disciplina, o respeito profundo às forças ctônicas (da terra) e o mistério que habita o silêncio. Pertencer ao Jeje é aceitar que somos guardiões de segredos antigos que regulam o invisível.
Com Egungun: O cordão umbilical nunca é cortado. A presença dos ancestrais masculinos glorificados nos lembra que somos a continuidade daqueles que vieram antes. O pertencimento, aqui, rompe a barreira do tempo: pertencer é saber que os mortos não estão mortos, mas caminham conosco, sustentando nossos passos.
Com a Umbanda: Abre-se o portal da caridade, do consolo imediato e do abraço fraterno. Através dos Caboclos, Pretos Velhos e Exus, a espiritualidade se humaniza. Pertencer à vibridade da Umbanda é entender que toda dor merece alívio e que a evolução se faz no chão da Aldeia, no terreiro da vida diária.
O Axé como Vínculo de Identidade
Na cosmovisão partilhada pelo sacerdote, o pertencimento é um ato de responsabilidade recíproca. Você pertence à casa, e a casa pertence a você. Esse vínculo é selado pelo ritmo, pelo compartilhar do alimento, pelas folhas que curam e pela fidelidade aos fundamentos.
"Não se pertence a um terreiro para ser salvo do mundo, mas para aprender a caminhar nele com a cabeça erguida, consciente de quem se é."
Quando o neófito ou o visitante cruza os limites desse espaço de cultura tradicional, ele é despido das etiquetas sociais do mundo profano. Ali, o que importa não é o cargo executivo ou o status financeiro, mas a prontidão do coração em se integrar à comunidade. O pertencimento cura a solidão contemporânea porque devolve ao indivíduo o sentido de comunidade (Egbe).
Conclusão: O Retorno para Casa
Escrever sobre a filosofia deste sacerdote é, em última análise, falar sobre o reencontro do ser humano com a sua própria essência. Em um solo que cultua Jeje, Ifá, Egungun e Umbanda, o pertencimento deixa de ser um conceito abstrato e torna-se carne, canto, fumaça de cachimbo e som de rum.
Pertencer a esta casa, aqui falo da minha o Axé Casa Grande é descobrir que somos o ponto de encontro entre o céu (Orun) e a terra (Aiye). E, sob a orientação sábia de quem conduz essa barca espiritual, aprendemos que o maior axé que podemos receber é a certeza de que nunca mais de que nunca mais caminharemos sozinhos.
Autor: Luiz Drumond, pesquisador, historiador, pedagogo, jornalista, Sacerdote do Culto Tradicional Iorubá, entusiasta dos direitos civis e escreve sobre cultura, sociedade e legislação no Brasil.
