Iniciante

NO PRINCÍPIO ERA O ÒRUN

Este livro reúne duas partes de natureza diferente. As Partes I a IV são um reconto literário e educativo das cosmogonias africanas e afro-brasileiras, escrito com base em fontes públicas, acadêmicas e na tradição oral tal como registrada por pesquisadores ao longo do século XX e XXI. A Parte V é a contribuição autoral do sacerdote Luiz Roberto Drumond Tinoco, apresentando a cosmovisão própria do Egbé Ifá & Orisha Agbonniregun Aworeni Odusolá (Axé Casa Grande). Nenhuma das duas partes revela liturgia iniciática restrita de terceiros.

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  1. 01

    Prefácio — Muitas origens, um só espanto Antes de qualquer coisa, havia a pergunta. Todos os povos, em algum momento de sua história, ergueram os olhos para o céu, para o mar ou para a mata e se perguntaram: como tudo isso começou? As respostas que a África Ocidental deu a essa pergunta — e que atravessaram o oceano com os povos escravizados e sobreviveram, se transformaram e floresceram no Brasil — estão entre as narrativas mais ricas e menos conhecidas da humanidade. Este livro reúne, em forma de reconto literário, duas grandes famílias de cosmogonias: a dos povos de língua fon-ewe, que cultuam os voduns, e a dos povos iorubás, que cultuam os orixás e guardam no sistema de Ifá a memória do destino do mundo. São tradições distintas, com histórias, línguas e territórios próprios — o Daomé (atual Benin e Togo) de um lado, a terra iorubá (sudoeste da Nigéria) do outro — mas que se encontraram no Brasil, na experiência comum da diáspora, e aqui construíram algo novo: as nações de candomblé Jeje, Nagô/Ketu, Angola e tantas outras. Um aviso importante antes de começar: os mitos que serão contados aqui pertencem à esfera pública da cultura — foram registrados por pesquisadores como Pierre Verger, William Bascom, Roger Bastide, Alfred Métraux e tantos outros, e são narrados publicamente em livros, museus e universidades. Este livro não descreve ritos, cantigas, ofós ou segredos iniciáticos de nenhuma casa de axé — esses pertencem à tradição oral de cada terreiro e não estão aqui. O que segue é a história do mundo, contada como só a mitologia sabe contar: com serpentes, búzios, barro e um vento que ainda não tinha nome.

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